Numa dessas manhãs em que o sol nasce devagarinho sobre o Rio Apa, uma coisa diferente aconteceu em Bela Vista. O Curupira apareceu. Não como lenda, mas de carne, osso e pés virados pra trás — igualzinho nas histórias que Dona Damásia contava nas rodas de tereré, lá no fundo do quintal, entre uma chipa quente e um susto bem dado nas crianças mais teimosas.
Dizia ela que o Curupira morava na mata fechada atrás do morro Margarida, mas que de vez em quando dava um pulo até a beira do rio, pra espantar caçadores e pregar peças em quem maltratava bicho. Só que dessa vez ele apareceu diferente. Estava com uma mochilinha de palha trançada, celular pendurado no pescoço e dizendo que iria viajar. “Vou pra Belém, sou mascote agora”, anunciou todo orgulhoso.
O povo da fronteira arregalou os olhos. Seo Coio, que só acreditava no que via, quase engasgou no coquito. A criançada bateu palma. “O Curupira vai pra COP30!”, gritou alguém, como se fosse jogo da seleção.
É que aqui em Bela Vista, fronteira com o Paraguai, o Curupira não é só lenda: é parte da alma da mata que ainda respira entre os capões de cerrado e o verde que sobra entre uma cerca e outra. Ele é guardião invisível da natureza, fiscal dos ipês, protetor das antas e até juiz das capivaras do Rio Apa, que de vez em quando fazem fila pra atravessar de um país pro outro.
A viagem foi longa. Pegou carona no barco do Japa, caminhou pelas infinitas lavouras, embarcou num ônibus com cheiro de guavira e chegou em Belém com os pés sujos e a alma cheia de histórias. Lá, viu o rio Amazonas se espalhar como um mar doce, conheceu indígenas de muitas etnias, cientistas com cara de sono e jornalistas querendo saber se ele era mesmo de verdade. “Sou sim”, respondeu, “mas só apareço pra quem respeita a floresta.”
Na COP30, o Curupira virou estrela da ONU. Teve selfie com ministro, entrevista na televisão e até ganhou versão em pelúcia — coisa que ele não entendeu muito bem, mas achou bonitinho. No meio dos discursos, falou de Bela Vista. Disse que tem um rio chamado Apa que é meio brasileiro, meio paraguaio, e que os peixes não ligam pra fronteira. Contou das tradições: sopa paraguaia, da fé nas promessas feitas na Matriz Santo Afonso, do tereré gelado servido com simpatia até pra quem vem de longe. Disse que cuidar da natureza não é pauta nova — é sabedoria antiga que vive nas falas dos velhos e nos passos das crianças soltas na rua de terra.
E assim, entre um painel sobre carbono, estratégias de combate às mudanças climáticas e uma conversa com um youtuber ambiental, o Curupira fez o que sempre fez: espalhou encantamento e lembrou que floresta não é só bioma, é lar. Lar de bicho, de gente, de espírito e de lenda. Que a natureza não se salva com papeis e conferências, mas com respeito.
Na volta pra Bela Vista, desceu na beira do Apa ao entardecer. Sentou-se na sombra daquele pé gigante de jamelão da praia do Pompilho, respirou fundo e tomou um gole de tereré. Sorriu satisfeito. A floresta agora tinha voz no mundo, e ela vinha lá da fronteira, de pés virados e coração valente.
E foi ali mesmo, na sombra fresca daquela árvore que o encontrei.
— “Demorô, mas cheguei”, disse o Curupira, após uma refrescante cuiada de tereré.
Olhei pra ele, sorri meio desconfiado, meio encantado. A criatura era do jeito que diziam: baixote, cabelão vermelho, olhos que brilhavam como vaga-lume em noite de São João e, claro, os pés virados pra trás. Estava com um cipó na cintura e um sorrisão no rosto.
— “Você não foi na COP30”, ele disse.
— “Eu? Só se for pra levar tereré e coquito pra galera de lá”, respondi, rindo.
O Curupira deu de ombros, fez um gesto largo apontando para a prainha assoreada.
— “A gente já vive defendendo a floresta faz tempo, cê não acha? Só tão notando agora.”
Ali, entre o som da água e o farfalhar das folhas do pé de jamelão, nasceu um silêncio respeitoso. Como se a natureza estivesse ouvindo.
Tatuei este dia na mente. Talvez para lembrar que a lenda é real. Ou, no mínimo, pra lembrar que quem ama a mata também carrega um pouco de Curupira dentro de si.




