OLHOS NOS OLHOS Por – Hiroshi Uyeda

Relembrar episódios favorece a criatura humana a analisar o que realmente aconteceu. Quem não se defrontou diante de determinada situação, que parece ser replay de algo similar que lhe aconteceu no passado? Relembra-a em detalhes e sabe quais foram as consequências. Facilita exercer o seu livre arbítrio.

Ter vivido em Bela Vista na década de 60 representou uma experiência única, maravilhosa e inesquecível. Repleta de romantismo, em que a vida tinha mais sabor, alegria, intensidade e cor. Satisfazia a todos os sentidos. Somente quem a vivenciou pode e faz absoluta questão em colocar como enredo em seu currículo vitae.

Não é uma questão de saudosismo. É porque deixaram indeléveis marcas em todas as pessoas. Onde estejam, no Brasil ou no exterior, todos os que passaram ainda jovens por Bela Vista jamais esquecerão os bailes do Bela-vistense, ao som do conjunto do Tranquilino, o sax do Ídio Escobar ou a orquestra Cassino de Sevilla e dos que foram animados por Gregorio Barrios em pessoa. Como seria possível esquecer os acordes dos conjuntos musicais brindando os presentes com músicas de Ray Coniff, de Glenn Miller, da turma da Jovem Guarda, Bossa Nova, choros, sambas canções, boleros, tangos e polcas?

Os brotinhos – assim se chamavam as jovens – desfilando seu charme, no Bar Bossa Nova, nas noites de sábado, com mini saias, saias godê estampadas, saias rodadas, salto Anabela, cabelos recheados de laquê, casacos de banlon. Os jovens com topetes emoldurados com brilhantina Glostora, sem chance de tê-los despenteados mesmo com ventos fortes, calças jeans Levis, com barras dobradas, camisas rigorosamente passadas e blusões à moda de James Dean.

Havia inocência nos atos. Nada se fazia com segundas intenções, com o objetivo de tirar vantagens, de prejudicar os outros, de valer-se de sua projeção social. A cidade era pequena, todos se conheciam e tinham o maior respeito um pelo outro. Dificilmente não teriam algum laço de parentesco. Todos eram conhecidos pelos seus carinhosos apelidos. Peeico, Cocota, Bigode, Ticu, Deco, Fillhote, Maneco, Caburé, Cuca, etc.

Ao projetar essas experiências para o presente dá-se impressão que as pessoas nascidas posteriormente aos Anos Dourados tornaram-se menos humanas. Residem em condomínios e não se conhecem. Reúnem-se esporadicamente, apenas nas Assembleias, palcos de intensas e improfícuas discussões. No âmbito familiar reúnem-se, apenas, para comemorarem aniversários, Natais e Anos Novos. E nem todos vão. O romantismo passa pelo curtir, comentar ou compartilhar das msg, dos WattApps e dos Facebooks da vida.

Há, portanto, uma grande diferença entre essas gerações. Distinguir a anterior como ultrapassada é um erro. A atual, é dominada pelo medo, pela violência, por exemplos contrários à razão, por atos que corrompem a moralidade, a ética, os bons costumes, as tradições. Estão sem bases. Sentem-se inseguros. Sempre de olhos nas telas de TV, nas quais piamente acreditam.

A geração anterior era dotada de sentimentos nobres, nos quais a humildade, o perdão, a lealdade, a palavra dada eram valores transformados em virtudes pessoais. A imensa vantagem está no purismo da experiência vivenciada. Nela pautam seus atos. Sentem-se verdadeiros. Sempre de olhos nos olhos, nos quais piamente acreditam.