O berrante, com o seu toque triste e belo, enfeitiça os corações pantaneiros

Não que seja uma marca inconfundível do Pantanal, ou de outras regiões do Mato Grosso do Sul. Sua presença pode ser encontrada até além do Brasil, principalmente na África, utilizado pelos cuidadores de gado.

No Brasil, com destaque para o Centro Oeste, Sudeste e Sul, é instrumento indispensável para os peões no trato diário com os rebanhos bovinos em deslocamento no campo, e fundamental para o controle das manadas.

Falo do berrante, um instrumento feito de chifres e que produz um som bem singular e que faz muito bem aos ouvidos dos bovinos. O berrante é absolutamente indispensável aos condutores das boiadas.

Ele é uma espécie de corneta ou buzina, usado desde a antiguidade por pastores, tendo sua eficácia reconhecida quando se trata de analisar as condições de orientação, alarme e comando do gado. Mas, também é reconhecido musicalmente.

O alemão Wagner, um dos mais festejados compositores da música clássica internacional, incluiu uma espécie de berrante em uma de suas óperas mais famosas: O Crepúsculo dos Deuses.

Em uma das passagens da ópera de Wagner, o protagonista da peça musical sobe em uma pedra e toca o berrante, avisando suas tropas sobre a existência de perigo, para que todos pudessem empunhar as armas.

Um dos mais famosos folcloristas brasileiros, além de poeta, escritor, ensaísta, musicólogo, crítico literário, entre outros dons e capacidades, Mário de Andrade, dizia que o berrante surgiu no Brasil por questões econômicas.

Segundo ele, “com a dificuldade monetária e comercial de se adquirir trompas de caça na Europa, o caçador fez o berrante”. É possível. Mas, até que não importa. Ele, o berrante, está muito bem adaptado no Brasil, do jeito que é.

A partir de estudos diversos, foi possível admitir que o berrante chegou ao Brasil pelas mãos dos escravos africanos, responsáveis por outras culturas que hoje fazem parte do cotidiano brasileiro.

Na África, segundo esses mesmos estudos, usavam-se os chifres do olongo (cudo), que por natureza já é curvado em espiral. O olongo, que vive em território africano, pertence à família dos bovinos.

Pois bem. Particularmente, o berrante passou a fazer parte inseparável das paisagens pantaneiras, compondo uma sinfonia única de sons e imagens que caracterizam o homem dessa tão extraordinária região brasileira.

A magia do toque que vem do berrante revela-se em toda a sua grandiosidade em meio às comitivas de logos percursos, tão comuns na vida dos peões pantaneiros na condução das boiadas, montados em seus cavalos.

Logo cedo, o berrante toca para anunciar o início da comitiva, junto com o barulho das patas dos cavalos e dos gritos dos vaqueiros. À frente de tudo, o peão ponteiro, que, como diz o nome, aponta o rumo a ser tomado, armado com o berrante.

Cada região tem o seu toque particular. O do Pantanal Sul-Mato-Grossense é de longe reconhecido como um dos mais tristes, mas, também, um dos mais belos entre todos os toques de berrantes do Brasil.

Indispensável que o leitor, ao visitar o Pantanal Sul-Mato-Grossense, não esqueça de fazer o esforço que for possível para ouvir o maravilhoso toque do berrante. De preferência, em meio a uma comitiva de peões e bois pelas estradas pantaneiras.