Filho cumpre último desejo dos pais e lança cinzas no Rio Aquidauana

A cerimônia, simples e carregada de significado, selou uma despedida que atravessou décadas e resgatou laços profundos com a cidade.

Um momento marcado por silêncio, lágrimas e memória reuniu familiares às margens do Rio Aquidauana no último domingo, quando um filho realizou o pedido feito pelos pais ainda em vida: ter suas cinzas lançadas nas águas do rio que marcou a história da família. A cerimônia, simples e carregada de significado, selou uma despedida que atravessou décadas e resgatou laços profundos com a cidade.

Antes do gesto final, os filhos participaram de uma Santa Missa na Igreja Matriz de Aquidauana, celebrada pelo padre Francisco Cáceres. Em oração, agradeceram pela vida de Hironi Takano e Yissohe Takano, que deixaram não apenas lembranças, mas uma trajetória profundamente ligada ao município.

A família viveu em Aquidauana até 1986. Hironi trabalhou como vendedor da Coca-Cola, atuou na cantina do CEJAR e do Forte Apache e, mais tarde, tornou-se pescador, atividade que exerceu por muitos anos, com registro na Colônia dos Pescadores. Foram também pioneiros no comércio de isca viva na região. Ainda jovem, o filho recorda que percorria a cidade de bicicleta para vender iscas no trevo, além de ter trabalhado no Tamashiro, comércio conhecido à época.

A música também fez parte dessa história. Em 1985, ele viveu seu auge artístico, com apresentações que contavam com o patrocínio de nomes conhecidos da cidade, como Zé Estevão, da Pantacolor, além de Vicínio e Benites. Era um tempo de sonhos, trabalho e forte ligação comunitária.

Mesmo após deixarem Aquidauana em 1986, a família nunca se desligou da cidade. Os pais voltavam sempre, principalmente para pescar. O local preferido era a região do Pequi, às margens do Rio Aquidauana, onde passaram incontáveis momentos juntos. Foi ali, inclusive, que Hironi expressou o desejo que seria compartilhado pela esposa: quando partissem, queriam ser cremados e ter as cinzas lançadas no rio.

Hironi morreu em 2005, há 20 anos. Yissohe faleceu recentemente, há pouco mais de um mês. Com a partida da mãe, o filho decidiu cumprir o desejo de ambos, encerrando um ciclo iniciado ainda na juventude da família em Aquidauana.

Após sair da cidade, a trajetória do filho seguiu outros caminhos. A família passou por Marília, até que ele se mudou para São Paulo, onde se formou em Odontologia. Hoje, é um profissional reconhecido, com uma grande clínica na capital paulista, administrada por ele e pela esposa. O espaço também funciona como escola de implantes e atende pacientes com traumas faciais graves, vítimas de acidentes que exigem cirurgias complexas de reconstrução bucomaxilofacial.

Apesar do sucesso profissional e da distância, Aquidauana nunca deixou de ser parte de sua história. Ao lançar as cinzas dos pais no Rio Aquidauana, ele não apenas cumpriu um último pedido, mas devolveu à cidade aquilo que sempre esteve ali: a memória de uma família que construiu sua vida entre o trabalho, a pesca, a música e o rio.

Fonte: O Pantaneiro