Eleição põe fim à ditadura das Emeis em Campo Grande

Decisão encerra era de humilhações e autoritarismo em unidades infantis

A prefeita Adriane Lopes (PP) deu um passo positivo para promoção da democracia nas Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis) de Campo Grande (MS). A gestora determinou que as 106 unidades da Capital devem fazer eleições para a escolha de diretores. 

“Hoje estou aqui pelo respeito que nós construímos. Respeito abre portas e hoje estou aqui para dizer que vamos sim realizar eleições para as EMEIs”, anunciou a prefeita, durante reunião na 2ª feira (28.ago.23) no Sindicato Campo-grandense dos Profissionais da Educação Pública (ACP).

A medida atende a Lei e uma cobrança histórica dos educadores,

 já que até hoje os diretores de Emeis são cargos políticos, indicados por terem ‘amigos’ na Secretaria de Educação ou outros órgãos com representantes legislativos. A espécie de sucessão por indicação é sintomática e fazia referência direta ao período da Ditadura Militar.       

DITADURA DO ‘QUEM INDICA’

Falta de qualificação, ausência de sensibilidade e tratamento abusivo para com os funcionários é algo comum na denúncia dos profissionais quando citam como lidaram e lidam com alguns ‘diretores’ indicados para chefiar Emeis. 

“Tem uma diretora que além de ser extremamente grosseira para lidar com os professores ou qualquer funcionário que trabalha lá na Emei,

 ela faz terror psicológico com a pessoa. Eu já a vi forçar funcionário a assinar ata que não tinha nada a ver com o comportamento dele, mas sim de outro professor. Então é assim, a bronca de um serve para todos. Tem um

Adriane Lopes fala com profissionais da educação durante a 2ª feira, na sede da ACP, em Campo Grande (MS). Foto: PMCG

a assistente da educação especial nessa mesma Emei, que a coordenadora entra a mando da diretora dentro da sala direto para ficar fiscalizando o que ela está fazendo e quando ela vê essa assistente, por exemplo, sentada, num momento em que ela acha que ela deveria estar em pé, então ela a chama na sala e fala ‘um monte’ para ela. Fora que já teve outros profissionais que em razão da grosseria dela, já pedira

m demissão. Ela grita, ela não sabe falar. Ela só sabe gritar com as pessoas e acha que é intocável porque é carne e unha com pessoas do alto escalão da Semed”, desabafou um profissional da educação que terá o nome preservado, pois teme represália. 

A dona de casa Jéssica Carvalho, de 28 anos, mãe de uma aluna de 4 anos, disse que fará parte do Conselho de Pais que organizará eleição em uma Emei na Capital. Ela disse que a medida aproxima os pais do ambiente escolar dos filhos.

“Vou fazer parte como mãe do Conselho que vai estar na escola. É de extrema importância ter essas eleições, porque é um jeito da comunidade estar participando. A maioria dos pais não são participativos na vida escolar do filho, então eu acho que esse método de votação que tem que ir lá participar, para escolher quem vai estar à frente da escola, é um meio da comunidade estar participando e ter ciência do que pode acontecer. Quem é melhor, quem não é melhor. Às vezes a gestão que está nas escolas não é boa o suficiente, é um jeito da comunidade estar participando e mudar essa situação”, considerou.

Para Jéssica, a decisão a faz se lembrar do seu período de escola em que havia votação e até os alunos votavam para trocar má gestões. “Apesar de a gente saber que em alguns lugares as pessoas estão por amizade, no cargo, mas o fato de ter uma eleição de diretor… eu lembro na época da escola, quando eu estudava tinha. Então, minha mãe ia, minha tia ia. Lá como era ensino médio a gente podia participar, votar também. Às vezes a gente não estava satisfeito, o próprio aluno não estava satisfeito com a direção da escola então ele podia votar”, narrou.

Jéssica observou que em razão dos alunos das Emeis serem muito pequenos, eles não saberiam de fato votar, mas que a comunicação dos filhos com os pais é forte aliado na tomada de decisão do que é um bom gestor. “Não podem estar ali participando ativamente, diretamente, mas pode ser indiretamente, né? Porque as crianças chegam em casa e contam para os pais o que acontece no seu dia-dia, e aí os pais acabam percebendo que não há mudança, ou às vezes tem um professor ali que não está apto para alguma coisa. Ou algum funcionário aconteceu alguma coisa, e a direção se fingiu de sonsa e passou diante. Então já é uma forma da criança estar participando, e os pais irem lá e só impor a escolha”, apontou.

HISTÓRICO

Mais de 100 professores e diretores da Semed estavam reunidos na tarde desta 2ª na sede da ACP, quando a chefe do Executivo Municipal decidiu cumprir a lei que regulamenta as eleições nas Emeis, sancionada desde 2018.

Segundo o presidente da ACP, Gilvano Kunzler Bronzoni, com mais essa vitória, a categoria conquista mais de 60% das pautas atendidas pela gestão apenas neste ano de 2023, o que é algo histórico para o segmento.

“O magistério começou o ano com cinco problemas grandes para resolver, sendo a estrutura das escolas, precarização e isso o Município já está atendendo com a reforma de todas as unidades simultaneamente. Em seguida foi o concurso público que a Prefeitura já anunciou e o edital deve sair agora em setembro. Em terceiro lugar é a eleição nas Emeis, que fomos agraciados hoje, ou seja, mais de 60% atendidos. Também já passou por aqui a repactuação da lei do piso que deve ser encaminhado para a Câmara ”, ressalta Gilvano.

“Hoje é um momento histórico, é um marco na educação infantil e na história de Campo Grande. Há anos nós lutamos por isso e hoje conseguimos a assinatura da Prefeita para que aconteçam as eleições nas escolas, para que o professor, o pai, possam escolher quem vai cuidar melhor da escola e do seu filho. Nós estamos arrepiadas, emocionadas, com um sentimento enorme de gratidão, pois isso significa muito para nós”, avaliou a professora da educação infantil Rosileide Lima da Silva.

A presidente do Conselho de Diretores e Diretores Adjuntos das Escolas Municipais (Condaem), Maria Lúcia de Fátima Oliveira, destacou que a luta histórica era para que o poder na escolha estivesse nas mãos de quem vive dentro da escola, dos professores, dos alunos, dos pais. “Serem eleitos, escolhidos, com respeito, pela comunidade. Nós estamos emocionados pois a gestão tem tido essa sensibilidade, de priorizar a educação, de entender essas pautas. É uma grande vitória para a educação”, disse.

Diretora há 12 anos, Cindy Santos apontou com um passo democrático nas Emeis e uma grande conquista da categoria. “A primeira infância é a etapa mais importante na vida do ser humano, é quando ele está em formação. A escola e a família juntas é sinônimo de criança feliz, de educação de qualidade e essa gestão nos mostra hoje que entendeu isso”, reverberou.

A prefeita Adriane Lopes designou à Secretaria Municipal de Educação e à ACP, para coordenarem a elaboração do edital que vai regulamentar a eleição nas EMEIs da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande, para que as eleições aconteçam ainda este ano.

“É uma expectativa que a categoria das EMEIs tinha há muito tempo. Valorizar a gestão democrática não é só cumprir a legislação, mas, principalmente, trazer a democracia para dentro das escolas, que é o centro de aprendizagem”, concluiu o secretário Municipal de Educação, Lucas Bitencourt.

FONTE: MS NOTÍCIAS