O velório do cineasta Eduardo Coutinho, assassinado a facadas na manhã de domingo (2) em sua casa, na Lagoa, Zona Sul do Rio, começou pouco antes das 10h30 na Capela 3 do Cemitério São João Batista, em Botafogo, também na Zona Sul. O enterro foi marcado para as 16h.
O diretor de cinema Paulo Ascensão foi um dos primeiros a chegar ao velório e destacou a importância das obras de Eduardo Coutinho para a cultura e para a educação brasileira. “Nos conhecemos desde 1985. O ‘Edifício Master’, que eu tive a chance de participar do trabalho, virou um legado. O filme é quase que obrigatório nas aulas de direito hoje em dia,” disse o amigo de Coutinho, que destacou ainda a generosidade do amigo: “Um profissional competente e apaixonado pelo que fazia”, finalizou.
O delegado Rivaldo Barbosa, diretor da Divisão de Homicídios, que investiga o caso, disse que o filho do cineasta, Daniel Coutinho, de 42 anos, foi preso em flagrante pela morte do pai. Ele está internado sob custódia na unidade intermediária do Hospital Miguel Couto, na Gávea, também Zona Sul. O paciente está em estado estável, após ter passado por uma cirurgia, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.
Logo após o crime, Daniel bateu na porta de um vizinho, “não concatenando as ideias” nem “falando palavras corretas”, em um aparente surto de esquizofrenia, apontou o delegado.
A mãe de Daniel, Maria das Dores Coutinho, de 62 anos, também foi esfaqueada (levou dois golpes de faca nos seios e três no abdômen, além de sofrer uma lesão no fígado) e está internada em estado grave. Ela também passou por cirurgia, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.
De acordo com o delegado, Maria das Dores se salvou porque conseguiu se trancar em um banheiro após ser golpeada. De lá, ligou para o outro filho do casal, Pedro Coutinho.
“A gente espera que a mãe se recupere para poder esclarecer [o que houve]”, disse Barbosa.
O delegado contou que Daniel primeiro golpeou o pai, até matá-lo. Em seguida, atacou a mãe. Ele, então, aplicou dois golpes de faca na própria barriga, foi até a porta do vizinho e pediu para o homem avisar o porteiro sobre o ocorrido. Daniel voltou para o apartamento e ficou lá até a chegada dos bombeiros.
“Ele abriu para os bombeiros voluntariamente. O porteiro bateu, ele abriu”, explicou Barbosa, acrescentando que uma vizinha disse ter ouvido gritos.
‘Libertei meu pai’, disse para vizinho
“Ele [Daniel] dizia: ‘Eu libertei o meu pai, tentei libertar a minha mãe e a mim, mas não consegui’. Ele tentou matar os pais e depois tentou suicídio”, afirmou o delegado. “Ao que parece, não houve briga. Vamos concluir a perícia em 24 horas para saber a dinâmica [ocorrida] dentro do apartamento.”
Barbosa disse não ter dúvidas de que Daniel seja o autor da morte do pai e da tentativa de homicídio da mãe. Além disso, segundo o delegado, o imóvel da família estava revirado.
Até agora, a polícia ouviu quatro pessoas, que relataram a dinâmica fora da casa e não apontaram qualquer indício de que houvesse uma pessoa estranha no local do crime.
O Corpo de Bombeiros informou que a chamada para a ocorrência no apartamento de Coutinho foi feita às 11h48 de domingo. Homens do quartel do Humaitá constataram ao chegar ao local que o cineasta já estava morto, e levaram os outros dois feridos para o Hospital Miguel Couto.
O corpo do cineasta foi levado para o Instituto Médico Legal (IML), de onde foi liberado por volta das 21h30 de domingo. O atestado de óbito indica “perfuração contundente” na altura do abdômen, segundo um funcionário da Santa Casa da Misericórdia do Rio.
Repercussão
Uma das primeiras pessoas a se manifestar sobre a morte de Eduardo Coutinho foi o também diretor Cacá Diegues.
“Ele era muito respeitado, era um mestre, os jovens cineastas do Brasil respeitavam muito ele. Coutinho era uma pessoa acima do bem e do mal”, declarou.
Outro diretor, Jorge Furtado ficou chocado com a notícia. “A morte do Coutinho é uma tragédia do cinema brasileiro, ele é um dos maiores documentaristas do mundo, um grande pensador do cinema.”
Carreira
O paulistano Eduardo Coutinho ganhou em 2007 a estatueta Kikito de Cristal, do Festival de Cinema de Gramado (principal premiação do cinema nacional), pelo conjunto de sua obra. Entre seus principais filmes, estão “Edifício Master”, “Jogo de cena”, “Babilônia 2000” e “Cabra marcado para morrer”.
Em junho do ano passado, ele e o também cineasta José Padilha (autor dos filmes “Tropa de elite” e “Tropa de elite 2: O inimigo agora é outro”) foram convidados a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (Ampas, na sigla em inglês), responsável pela premiação do Oscar.
Em toda a carreira, Coutinho dirigiu 20 filmes, entre longas e curtas-metragens, segundo informações do site IMDB. São eles:
“O ABC do amor” (1967)
“O homem que comprou o mundo” (1968)
“Faustão” (1971)
“Seis dias de Ouricuri” (1976)
“Teodorico, o imperador do sertão” (1978)
“Exu, uma tragédia sertaneja” (1979)
“Cabra marcado para morrer” (1985)
“Santa Marta” (1987)
“O fio da memória” (1991)
“Boca de lixo” (1993)
“Santo forte” (1999)
“Babilônia 2000” (1999)
“Porrada” (2000)
“Edifício Master” (2002)
“Peões” (2004)
“O fim e o princípio” (2006)
“Jogo de cena” (2007)
“Moscou” (2009)
“Um dia na vida” (2010)
“As canções” (2011)
Entrevista exclusiva
Ao G1, em 2013, o cineasta disse ser fácil se apresentar para grandes plateias, como ocorreu no Festa Literária Internacional de Paraty do ano passado. Ele também deu detalhes de seus filmes e de como conseguia tirar o máximo de cada entrevistado.

Coutinho explicou que seus temas principais sempre foram os mais simples do dia a dia.
“O que é viver? Para que estudar? Para que dinheiro?”, afirmou, dizendo que as perguntas mais básicas sempre são as mais interessantes.
Na entrevista ao G1, o diretor também deu uma sugestão do que poderia ser um bom documentário atual. Segundo ele, as manifestações de rua vistas em junho de 2013 no país valeriam um filme, desde que ele se propusesse a discutir o assunto.
“Bom é o filme que faz perguntas. O que tem respostas, você joga no lixo”, destacou Coutinho na época.



