Ao vasculhar o interior do prédio da boate Kiss, nesta quarta-feira, Santa Maria não irá lembrar apenas a maior tragédia recente do Rio Grande do Sul, a qual matou 242 jovens e deixou centenas com sequelas que ainda perduram. Mais do que tudo, a cidade irá expor que continua dividida por sentimentos conflitantes, que afloram entre a indiferença e a revolta.
Inspecionar as dependências da Kiss será como remexer numa ferida aberta, a qual ainda paralisa a vida dos santa-marienses, em maior ou menor grau. Uns querem esquecer o 27 de janeiro de 2013, atribuir o que ocorreu a uma fatalidade – mesmo que tenha sido provocada por uma sucessão de malfeitos e omissões. Outra parcela, indignada, assegura que a rotina não pode ser retomada enquanto os responsáveis pelo incêndio estão impunes.
O fato é que Santa Maria cindiu entre os que defendem o perdão e os que clamam por justiça. No início da tarde de ontem, enquanto funcionários da empresa contratada para a limpeza montavam as tendas cobrindo a fachada da boate Kiss, na Rua dos Andradas, pedestres passavam apressados. Poucos olhavam o que acontecia, mas não se detinham e logo se misturavam à multidão.