Começa na fronteira de MS projeto da Iagro que repassará R$ 27,9 milhões para Itel, empresa financiadora da campanha de Puccinelli

Fernanda Kintschner/Midiamax

Serão trocados todos os brincos do gado pertencente a Zona de Alta Vigilância (ZAV), na fronteira do Estado com o Paraguai. Entre os municípios estão Antonio João, Bela Vista, Caracol e Porto Murtinho.

 

A Iagro (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal de Mato Grosso do Sul) colocou em prática um projeto de R$ 27.996.000,00 de um sistema informatizado para o controle do rebanho da fronteira. O consórcio contratado é com a coreana Hana Latin America e a Itel Informática Ltda, empresa investigada pelo Ministério Público Estadual e que trabalha há anos para o Governo do Estado, além de ser doadora de campanha do governador André Puccinelli (PMDB).

A contratação foi publicada em setembro, no Diário Oficial do Estado, com duração de 24 meses. O projeto, segundo a diretora-presidente da Iagro, Maria Cristina Carrijo está sendo pensado há cinco anos e o montante de recursos é para o uso de três anos que contempla o desenvolvimento do sistema, implantação e manutenção.

Serão trocados todos os brincos do gado pertencente a Zona de Alta Vigilância (ZAV), na fronteira do Estado com o Paraguai. O rastreamento será obrigatório aos municípios de Mundo Novo, Japorã, Sete Quedas, Paranhos, Coronel Sapucaia, Aral Moreira, Ponta Porã, Antonio João, Bela Vista, Caracol e Porto Murtinho.

Segundo Carrijo, os produtores vão receber também leitores imprimir na própria fazenda a GTA [Guia de Transporte Animal – documento necessário para qualquer movimentação do rebanho] e a nota fiscal.

“Será pioneiro no país e objetiva a transparência na fiscalização, comercialização e sanidade animal. Todos os equipamentos e custos serão pagos pelo Estado e o produtor não terá nenhum ônus”, garantiu a diretora-presidente.

A Iagro complementa que a intenção é ampliar mercados consumidores e com a modernização do sistema ocorrerão menos erros do que o sistema de marcação manual existente. Todo o trabalho deve ser concluído até 2014, mas há produtor que desconfia da operacionalidade do projeto.

Desconfiança no campo

“A ideia é boa, mas cerca de 10% a 20% dos brincos dos bois caem, enrosca em cerca etc., como vou saber qual brinco caiu? Além disso, o aparelho para por a inscrição vai ter um para cada município. Precisava um para cada produtor. Então não sei se a parte operacional vai beneficiar o produtor e nós beneficiamos o país, precisa de reciprocidade”, argumentou Chico Cintra, produtor de Bela Vista (MS).

Segundo o membro da diretoria do Sindicato Rural de Bela Vista, Afonso Pinheiro, só naquela região há 230 mil cabeças de gado na fronteira e o atual modo, indicado pelo Ministério da Agricultura funciona muito bem.

“Se funciona, tem credibilidade, exportamos bem, por que trocar? Qual será o benefício direto ao produtor? Por que fizeram isso sem ouvir o produtor? Fomos avisados em cima da hora e R$ 27 milhões é muito dinheiro, em um ano pré-eleitoral. Sanidade está igual a seca do Nordeste, gastam milhões e o consumidor final não vê benefícios”, criticou.

O aviso ao produtor no “afogadilho” foi confirmado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), que confirmou que o sistema foi apresentado no final de setembro e que, apesar disto, os produtores serão acompanhados pela Federação.

“Durante toda a implantação vamos dar o suporte que o produtor precisar. Ainda não temos opinião formada sobre o sistema, porque é novo, mas vamos tentar dar a viabilidade necessária, já que não haverá custo para o produtor”, afirmou um dos diretores, Ruy Fachini.

De acordo com o superintendente federal da Agricultura em Mato Grosso do Sul, Orlando Baez, seja a identificação eletrônica, seja manual, o importante é cumprir o acordo que existe desde 2008, de registrar com o brinco todos os animais da fronteira entre o Brasil e Paraguai.

“Não há recursos federais envolvidos neste projeto, mas com tanto que o acordo seja cumprido, tanto faz eletronicamente ou manual, o Estado resolveu por chip, mas o que importa é garantir a identificação para o melhor controle do gado e garantia da sanidade animal”, ressaltou Baez.

Doadora de Campanha

O Ministério Público Estadual ainda investiga a Itel Informática, por supostas irregularidades em serviços prestados para a Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso do Sul (Sefaz). A denúncia no inquérito aberto neste ano é de que a “empresa estaria prestando serviços afetos a atividades-fim do Estado e privativos de servidores públicos concursados”.

A empresa consta entre as financiadoras da campanha eleitoral de André Puccinelli (PMDB), segundo as prestações de contas oficiais entregues ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). De acordo com os dados, a Itel (CNPJ 00.521.671/0001-06) doou nas últimas eleições R$ 500 mil para a campanha de reeleição do governador André Pucinelli.

Além disso, o dono da Itel, João Roberto Baird, desembolsou R$ 1,7 milhão para bancar os gastos de campanha de Puccinelli e foi o maior doador individual da campanha do peemedebista em 2010.