CINE SÃO JOSÉ- Por – Hiroshi Uyeda

Tudo em excesso prejudica. A liberdade faz do ser humano uma pessoa moral e, consequentemente, responsável pelos seus atos.

A moral observada no Brasil desde remotas eras, mais acentuadamente no interior do país nos Anos Dourados constava em uma espécie de código de honra não escrito, recheado de proibições e pouquíssimas concessões. Praticamente tudo era proibido. Como era difícil ser submetido ao julgamento da sociedade.Imperava, na época, a supremacia do homem sobre a mulher, tradição herdada desde os tempos coloniais. Tinha-se a figura de chefe de família, cabeça do casal, em regime totalmente patriarcal.

Nem por isso os homens, solteiros ou casados, se sentiam em plena liberdade, pois várias questões eram consideradas tabus. Moralmente inaceitáveis quaisquer tentativas de infringências. Muito menos as consumações. As mulheres tinham liberdade cerceada muito acima da dos homens. A observância e manutenção dos tabus eram uma questão de honra, em constante páreo com os dogmas religiosos. Impunham-se às mocinhas horários e procedimentos para tudo. As saídas, à noite, antecedidas por habituais conselhos da mãe, só aconteciam se acompanhadas por alguém da família, irmão ou primo.

Essa situação criava embaraços principalmente para os jovens. Iniciar um namoro, nessas condições, era um desafio. Todas as oportunidades eram consideradas por eles em Bela Vista, desde um simples banho no Apa, bailes nos clubes Bela-vistense e Pedro Rufino, missas, bingos, aulas, aniversários e demais eventos. Troca de olhares, um passar de mãos nos cabelos, bilhetinhos, troca de fotos 3×4 eram indícios de ótimos primeiros sinais de interesse.Pegar nas mãos, tão naturalmente quanto possível e despercebido pelos demais, principalmente, pelo irmão ou o primo da mocinha, era uma distância considerável a ser percorrido.

Não por motivos outros, a sala de projeção do Cine São José nas noites de sábado e domingo vivia apinhada. Era a tão aguardada oportunidade de estarem mais próximos, com a ajuda de um coadjuvante inestimável: o escurinho. Logo após a exibição das propagandas em manuscritos surreais sobre lâminas de vidro, projetadas na tela, à meia luz, iniciava-se a projeção de noticiário, em preto e branco, já, então, com a sala escurecida.Os jovens fixavam os olhinhos na tela, com os pensamentos voltados na estratégia a ser utilizada para pegar nas mãos da menina. Os corações pulsavam a toda velocidade, aguardando o momento propício. Até aí, nenhuma proibição.

Proibido mesmo era beijar. No cumprimento de suas obrigações, o lanterninha Henrique mantinha-se atento, circundando a plateia. Quando o beijo acontecia, os rostinhos dos jovens eram iluminados, para total desespero deles. O fiel e sádico escudeiro da moralidade não se contentava em pegá-los em flagrante. Gesticulava, ostensivamente, o dedo indicador de sua mão, de um lado para outro, para patentear a proibição. Valia para solteiros e casados.

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