TERERÉ, UM MOMENTO MÁGICO- Por – Hiroshi Uyeda

O Deserto do Saara é, realmente, impressionante e assustador. Por quilômetros sem fim a vista vagueia entre dunas de areia, morros sem vegetação e rochas, sob um sol causticante. Nem mesmo a indumentária de tecido leve, a touca enrolada sobre a cabeça e as extensões a cobrir as narinas e a boca são suficientes para minorar a terrível sensação térmica acima de 40º, apesar das ligeiras e rápidas brisas refrescantes acompanhadas de poeira.

Às 16:00h todos descem dos dromedários e em sagrada confraternização sentam-se na areia, em círculo, no centro do qual uma pequena fogueira é acesa e sobre ela uma chaleira é colocada para ferver água.

Geralmente, procuram a sombra entre as enormes rochas íngremes. Um touareg coloca chá preto em alguns copos de vidro e num gesto teatral, empunha a chaleira fumegante, levantando-a com a mão direita a uma boa altura e sem derramar uma só gota, coloca a água no copinho seguro na mão esquerda. 

Não há como desassociar esta cerimônia à do tereré, nada obstante os ambientes distintos. Nos eventos que acontecem diariamente em Bela Vista, em cenário verdejante e com o Rio Apa ao fundo, de comum, apenas o calor. Lá, o atmosférico, aqui, o humano. Lá o convite não pode ser recusado. É uma ofensa. Aqui, todos se auto convidam, sem ofensas. Lá os copos são reutilizados, sem limpá-los, pois a água é rara e insuficiente. Aqui, a recipiente é único e a bomba também não é lavada a cada uso. Lá, o tea é usado para amenizar o calor, pois após ingeri-lo, o choque térmico produz uma sensação de frescor no corpo, acentuado pela brisa, na sombra das pedras. Aqui o tereré também produz idêntica sensação térmica.

No Deserto do Saara ou em Bela Vista, o momento de confraternização é mágico. É uma excelente oportunidade para meditar. Lá ou aqui as pessoas se encontram e se sentem solidárias. Não há música sem nota, livro sem letra, casa sem areia, pão sem trigo. Para transformá-los em sinfonia, romance, residência e alimento os homens são convocados. 

Incógnita é a razão de nascerem em locais inóspitos como no Deserto do Saara, Himalaia, Polo Norte ou de serem aquinhoados por nascerem neste abençoado rincão pátrio. Todos deixam de ser peças únicas. Deixam de ser uma nota, um grão de areia, um grão de trigo. Todos passam a ter papeis neste grande espetáculo da vida. Cada um necessita dos demais para transformar verbo em ação e todos procuram desempenhar, da melhor forma possível, o papel mais importante de suas vidas.

E no epílogo desta meditação, todos descobrem que ao saborear o chá ou o tereré praticam um gesto de amor.

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