Pião, não! Trompo!

Pião, não! Trompo!

Uma cuspida em qualquer recorte de rua, macio o suficiente para receber um beijo de pua, era o nosso apito inicial. A disputa acontecia em qualquer esquina ou pedaço de chão. Salão arrumado, os trompos já se ajeitavam para a dança sempre bem coreografada. Vários olhares e mãos habilidosas roçavam uma a outra em movimentos rápidos, em que umas enrolavam o trompo na mesma sincronia com que as outras se desenrolavam das mãos contrárias. Manhosos, os trompos se ajeitavam no abraço apertado das cordinhas já encardidas de infância de rua.
Sol, lua, chuva, vento, sempre nos prestigiavam em plateia. E os trompos exibidos em vaidade, pareciam ganhar vida. Por vezes, julgávamos que eles eram de carne e osso. Sorrindo, ocupavam todo o salão em passos e rodopios, com cantos suaves que encantavam os ouvidos de todo artista guri. O trompo nascido em algum balcão de bolicho, por vezes, era recebido com desdém, com olhares de reprovação, como se o seu dono fosse menos criança. Bons eram os gerados em um galho de goiabeira, forjado pelo talento e habilidade de um pai, tio ou conhecido, com o dom de dar magia a um pedaço de árvore.
Eles rodam ainda hoje. Desde os trompos personalizados, ou os que incorporavam nossa personalidade, até os “tararicas” – os tais trompos que não deram certo -, parecem ter costurados todos nós na mesma linha do tempo. Volta e meia, em qualquer sorriso de saudade, num encontro com parte da nossa infância, nos reencontramos todos – até os que já foram jogar trompo em algum plano superior -, na mesma roda de disputa. E ainda ouvimos os chamados dos pais, os entreveros das ruas, os gritos de “já pra casa” e os trompos nos sorrindo e implorando uma visita.
Ah, o tempo; mesmo nos deixando tão distantes, nunca terá a autoridade de matar o guri que fomos lá atrás, e que vive adormecido, a espera de um simples convite para uma viagem no tempo. E estaremos todos lá, a espera, com trompos em punho! No nosso tempo!
Josyel Ribeiro Carvalho
(josyel@gmail.com)

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