NAMOROS Por – Hiroshi Uyeda

{Antes, ficava-se namorando. Agora, namora-se ficando.}

Os jovens ficam intrigados com os relatos de como eram os namoros na década de 60. É natural. Hoje a tecnologia permite a aproximação virtual das pessoas, sem delongas, sem necessidade de preparo emocional. Pergunta-se: tá a fim?

A evolução observada não foi apenas tecnológica. Houve uma revolução. Falava-se no telephone, hoje no WhatsAPP. Escreviam-se cartas, aerogramas, cartões postais, hoje e-mails. Enviavam-se telegramas e telex, hoje ICQ. Era tudo muito demorado. No namoro, tudo era completamente diferente.

Antes, precedia-se a corte. Iniciava como amizade, progredia e chegava-se ao casamento. Tudo realizado por etapas, sem pressa, com zelo, carinho, respeito, cuidado, romanticamente. Com vários protagonistas: os pais, os irmãos, a sociedade. Em locais públicos: praças, salões de bailes, cinemas, festas. Sempre vigiado. Por isso, os rapazes e as moças tinham um sistema de códigos, de sinais. Inicialmente, troca de fotos 3×4, bilhetes com frases copiadas e cartas, transcritas de manuais com diversos modelos. Em letras caprichadas. Estas eram entregues por meio de amigos, irmãos, primos. Após, ocorriam as serestas, geralmente de madrugada. Depois, os encontros ¨casuais¨ nas lanchonetes. Nos bailes, a formação de pares constantes. Nas primeiras danças, os rapazes e as moças se observavam. Tentavam captar algum sinal de aceitação. Quando notada, um assentimento com a cabeça bastava. As músicas lentas, românticas, criavam o cenário ideal para iniciarem pequenos diálogos com os rostos colados. As moças jamais iam e voltavam sozinhas.

Era imprescindível o rapaz perguntar: quer namorar comigo?Iniciava-se o namoro no portão, super vigiado e com hora marcada. Só depois de vários encontros rolavam os primeiros selinhos. Um leve roçar nas bochechas. Mon Dieu! Quanta emoção!O direito de atravessar o portão e se instalar no sofá da sala só vinham depois de passar pela parte mais dramática. Era necessário reunir-se com o pai da jovem, apresentar-se e submeter-se a um extenso questionário sobre suas condições de vida, suas reais intenções, seu caráter, sua religião, suas origens. Sufoco, nervosismo e tremedeira.

Aprovado, poderia começar o namoro, sempre em casa, comportados, sentados na varanda ou no sofá, em companhia constante da mãe da jovem.Como a futura sogra atrapalhava.O namoro corria o risco de não ser aprovado pelos pais da jovem. Aí surgiam as amigas para arrumar um jeitinho de eles se encontrarem. Se os pais desconfiavam, seguiam as filhas. Quanta confusão! Tudo podia acontecer, até mesmo os jovens apaixonados fugirem. Daí para o casamento o passo era menor, embora o risco maior. As filhas podiam ser expulsas de casa. Desonraram a família.

Todas as mães viviam alertando suas filhas para terem muito cuidado com as intenções dos rapazes. Tempo difícil. Não havia educação sexual e esta matéria era tabu. Fazer-se de rogada era a estratégia para não ser chamada de ¨mulher fácil¨. As meninas deveriam ser honradas, honestas, leais, formosas, prendadas e bem educadas. Os jovens, carinhosos, honestos, trabalhadores, de boa índole, bem intencionados e terem condições para permitir uma vida folgada à futura esposa.

Tudo certinho, vinha a fase do noivado. Com festa, anéis de compromisso, discreto beijinho na frente de todos. Só depois os noivos podiam partilhar de uma certa intimidade. Do noivado caminhava-se para o casamento. O enxoval da noiva compunha-se do necessário para o novo lar. A escolha contava com a ajuda das avós, tias, madrinhas e primas. Toalhas, colchas, lençóis recebiam monogramas das iniciais dos nomes dos noivos. Ao noivo competia a escolha de suas roupas e completar a mobília da casa. As despesas da festa ficavam exclusivamente com os pais da noiva.

O namoro naqueles tempos era tremendamente casto e podia se arrastar por anos a fio. Os rapazes tinham como desafogar sexualmente. Cabia às mocinhas se preservarem castas para a noite de núpcias. Se não fosse virgem o casamento podia ser anulado. Era lei. Houve caso de devolução da jovem aos pais por esse motivo. Dramático era mesmo o fim do namoro, do noivado ou do casamento. De cada lado muitas lágrimas, marmanjo em homéricos porres, mulheres com os corações partidos.Terrível drama acompanhado, pari passu, pelos familiares. Uma sensação de perda de tempo irreparável, de lenta recuperação.

Hoje, os pares ficam juntos sem assumirem compromissos. Não precisam estar apaixonados. Alguns mal começam a namorar, a menina fica grávida e se casam. Sem noivado e mixuruca festa de casamento. Tem filhos e desfazem o casamento. Hoje é inconcebível iniciar um relacionamento sem sexo. Se a gatinha dá uma de difícil, o malandrinho só espera o momento para dar o fora. Se ela for liberal, deve provar, permitindo tudo. Depois vem o esfriamento, a gravidez, o sumiço e o cara troca o celular, sua primeira e imediata providência. O romantismo desapareceu.

As mães passaram a ser vovós prematuramente. É, realmente, impossível de os hábitos e costumes voltarem a ser como antes. É o preço da modernidade. Aumentaram a liberdade e diminuíram as responsabilidades. Os relacionamentos são descompromissados e cada vez mais superficiais. As crianças, inocentes sob todos os aspectos, ficam no meio do jogo de interesses, passando de mão em mão. O assunto é abrangente, delicado e difícil, prato cheio para psicólogos, sociólogos, educadores, Conselhos Tutelares, Delegacias de Menores, Estatuto das Crianças e Adolescentes, Poderes Legislativo e Judiciário e Secretarias Estaduais da Criança.Tudo em decorrência da evolução ou melhor, da revolução.

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