NA PRAIA Por – Hiroshi Uyeda

Um dia haveria de chegar para aquele bela-vistense da gema ir a uma praia do extenso litoral brasileiro. Estava próximo de completar 18 anos. Rapaz simples, de esmerada educação, extremamente respeitoso,hábitos e costumes recatados, virtudes herdadas da família, comuns em todas as famílias nos anos 60. 

Namoros só podiam ter continuidade se solicitados aos pais da moça. Assim surgiu o namoro de uma de suas irmãs, uma belíssima jovem, de imensos olhos brilhantes e de lindos, compridos e bem tratados cabelos negros. A família tinha projeção na sociedade bela-vistense e, em pouco tempo, era o motivo maior de todas as conversas na cidade. O par era perfeito. Nasceram um para o outro.Nada poderia impedir o casamento. Anunciaram o noivado e se casaram.

Um ano após, nas férias escolares, foi convidado a passá-las com eles, em Santos-SP, na praia. A perfeita identificação com o cunhadofizera nascer uma grande e duradoura amizade. Como recusar a oportunidade de conhecer praias?

Foram de ônibus. Em nenhum momento ele pregou os olhos. Tudo era novidade. As lanchonetes, os restaurantes, o cheiro da grande capital, São Paulo, as lindas paisagens da Serra do Mar, e, finalmente, a brisa marítima, em Santos. 

Na manhã seguinte, a tão esperada e sonhada ida à praia. Vestiu um short vistoso. Na cabeça um boné, nos pés, chinelos de sola de borracha, adquiridos na loja do Papito. Demorou-se um pouco em frente ao espelho alisando seus cabelos, seu preciosíssimo tesouro. 

Instalaram-se na praia. Por longo tempo contemplou a imensidão do mar, a linha do horizonte, as gaivotas, o movimento, o barulho das ondas, as pessoas na água e outras na areia. Sol prometendo um dia de muito calor. Nenhuma nuvem no céu. Nunca em sua vida tinha visto algo tão bonito, tão grandioso. Extasiou-se, mudo e imóvel. Tudo perfeito. 

Disseram-lhe para experimentar a água do mar. Era necessário constatar se realmente era salgada. A areia escura da Praia Grande poderia conter bactérias, pensou. Portanto, somente provaria o sabor quando mergulhasse.

Retornou ao local onde os outros estavam, propôs darem um mergulho.Habituado a saltar das barrancas do Rio Apa e atingir toda profundidade, era a oportunidade de mostrar sua habilidade. Deu uma ligeira corrida como sempre fez em Bela Vista e ao chegar no término da linha da areia e início da do mar colocou as duas mãos unidas, os braços estendidos para a frente e efetuou seu salto.Muitos gritaram:

– Tá doido!

Fez-se ouvir um grito de dor. Corpo estirado na areia em contorções. As mãos na cabeça. Ainda atordoado, ele informou:

– Não sabia que era tão raso. Meti a cabeça na areia. Tá doendo. Deve ter arrancado todos os meus cabelos.

Causou apreensão, mas, logo após, foi motivo de muita risada. Até hoje, quando lembram. 

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