Médico suspeito de vender vaga na Santa Casa admite que já burlou lei, mas para salvar vida

Vinícius Squinelo

 


 

Alvo de investigação da Santa Casa de Campo Grande, o médico cardiologista João Jasbik Neto negou qualquer participação em suposto esquema que burlava a fila do SUS (Sistema Único de Saúde) e contestou a direção do hospital. O médico confirma que pediu ajuda de João para realizar o procedimento, mas explica que a prática é normal e que não precisa passar pela direção do hospital.

A Santa Casa abriu investigação para averiguar a internação do paraguaio Claudio Ramirez que, segundo a ABCG (Associação Beneficente de Campo Grande), mantenedora do hospital, realizou uma cirurgia eletiva como emergência, burlando a fila. Jasbik nega o fato, e garante que o paciente corria risco real de morte caso não fosse internado.

Em entrevista exclusiva ao Midiamax, o cirurgião garante nunca ter ‘facilitado’ a realização de cirurgias em qualquer paciente em troca de propina e ainda contestou a direção da Santa Casa, afirmando que ninguém melhor do que ele pode dizer se uma cirurgia é, ou não, de emergência.

O suposto esquema foi revelado pela ABCG, que chegou a demitir o funcionário João Alberto Soares de Oliveira, pela internação irregular do paraguaio Claudio Ramirez. Jasbik confirma que pediu ajuda de João para realizar o procedimento, mas explica que a prática é normal, e que não precisa passar pela direção do hospital.

Segundo Jasbik, não existe fila de cirurgia cardiológica dentro da Santa Casa, e sim no centro de regulação, dirigido pela Sesau (Secretaria Municipal de Saúde). “Todos os pacientes que chegam aqui para mim eu atendo, e não sou eu que cuido da fila e da ordem de espera. Os pacientes chegam aqui e eu atendo, é assim que funciona”, defende.

O médico admite que já burlou a lei, mas para salvar a vida de um paciente. Por diversas vezes, o cardiologista negou qualquer tipo de esquema ou recebimento de favores ou propina para a realização de uma cirurgia.

João Jasbik Neto, de 65 anos, é cirurgião cardiologista desde 1973 e atua desde a década de 80 na Santa Casa de Campo Grande. Nas contas do médico, ele já realizou mais de 18 mil cirurgias e 18 transplantes de coração. Hoje ele coordena uma equipe de seis médicos no hospital.

A diretoria da ABCG (Associação Beneficente de Campo Grande), mantenedora da Santa Casa da Capital, confirmou que o médico cardiologista João Jasbik Neto está sendo investigado pelo hospital, pelas denúncias sobre suposta facilitação para que pacientes furem a fila de cirurgias cardíacas. Por falta de provas, o médico continua atuando.

Confira a entrevista com o médico:

Midiamax: sobre a internação do paciente paraguaio Claudio Ramirez, o que ocorreu?

Jasbik: eu operei o paciente no ano 2000, quando foi colocada uma válvula mitral. Ele chegou ao hospital novamente no mês passado, com a válvula rompida. Ele já apresentava dispneia (falta de ar) e estava muito branco. Eu pedi uma ajuda para o João, que estava me ajudando, para conseguir internação. O paciente foi operado, internado e saiu bem, feliz.

Prefiro ser punido por alguma incoerência, do que por negligência, deixando ele morrer.

Midiamax: foi dito pela ABCG, representada pelo presidente Wilson Teslenco, que a cirurgia do Ramirez era eletiva, e não de emergência, procede?

Jasbik: não era eletiva, o paciente corria risco de morte. Não sou arquiteto e quando algo de arquitetura para analisar, chamo um arquiteto. Mas posso dizer que era cirurgia de emergência, e não eletiva. Sou médico da Santa Casa e tenho autonomia para internar um paciente que precisa. Sem contar que a Santa Casa vive dizendo para eu esperar para operar, porque está sem verba para internar.

Faço questão de você escrever isso, e muito menos, desde 1982 nunca existiu fila no meu serviço, o paciente chega e eu opero. A fila que existe é assim, são dez pacientes para operar, cinco, que opera durante a semana, o mês. É a rotatividade normal. Quando eu atraso uma cirurgia, é que a Santa Casa me pede “espera um pouquinho” para liberar este doente, porque “só temos dinheiro para tanto”.

(Jasbik ainda lembrou que intermediu a doação de R$ 2,4 milhões para a ala de cirurgia cardíaca da Santa Casa, com 12 leitos e que os equipamentos que usa são todos próprios, nenhum é do hospital)

Midiamax: a ABCG garante que o João Oliveira não deveria estar ajudando em internações (era lotado no banco de sangue), como foi esse pedido de ajuda?

Jasbik: eu não sabia que o João tava no banco de sangue, e não sabia que ele não era responsável. Como eu peço a internação para qualquer funcionário da Santa Casa. (Segundo o médico, o pedido era feito em forma de carta manuscrita)

Midiamax: em caso de internação, não é necessário entrar em contato com a direção clínica ou do hospital?

Jasbik: não. Eu tenho autonomia, sou médico da Santa Casa, tenho autonomia de internar. Eu faço o encaminhamento.

Midiamax: o senhor tem conhecimento de alguma rede de favorecimento para burlar a fila do SUS na Santa Casa.

Jasbik: primeiro que não existe fila. Se existe fila da Sesau é outra coisa, se ele (Teslenco) tá misturando as coisas, ele tá querendo me pegar, me chamar de bandido.

Não tenho conhecimento de rede alguma e pode colocar Polícia Federal em cima.

Midiamax: nos procedimentos, é só cobrado o valor da tabela SUS?

Jasbik: é a própria Santa Casa que paga, com base na tabela do SUS.

Midiamax: houve algum tipo de propina?

Jasbik: não.

Midiamax: o senhor já operou pacientes eletivos como se fossem de emergência?

Jasbik: não. Eu sou apenas cirurgia, atendo os pacientes enviados pelo cardiologista. E gostaria imensamente que nessa hora de operar não fosse negado a internação pra os meus pacientes, como ocorre diariamente. “Não pode internar, vamos ver, não tem dinheiro”.

Midiamax: e aí faz o que faz quando não pode internar?

Jasbik: aí a gente burla a lei. Pede para passar pelo pronto socorro, para poder internar e salvar o doente, se não morre. Afinal de contas eu sou médico, tenho essa obrigação. Prefiro responder punição por qualquer outro motivo do que por um paciente que morreu, que eu vou achar que eu que matei.

Midiamax: como era no período da intervenção?

Minamar Junior
 

Jasbik: desde o primeiro dia da intervenção eu fui contra, a associação deveria tomar conta, junto com os médicos. Fui contra até o último dia, contra a intervenção.